quinta-feira, 8 de novembro de 2012



© ssobrado, paris, 2011






"Je pense à une après-midi à Paris à laquelle je dois des lueurs sur ma vie qui m’ont frappé comme l’éclair avec la violence d’une illumination. Ce fut précisément cette après-midi-là que mes relations biographiques avec les êtres, mes amitiés et mes camaraderies, mes passions et mes amourettes se révélèrent dans leur enchevêtrement le plus vivant et le plus secret. Je me suis dit que Paris, où les murs et les quais, l’asphalte, les collections et les décombres, les grilles et les squares, les passages et les kiosques nous apprennent une langue si singulière, devait nécessairement être le lieu où, dans la solitude qui nous étreint, absorbés que nous sommes dans ce monde d’objets, nos relations avec les êtres atteignent la profondeur d’un sommeil où les attend l’image de rêve qui leur révèle leur vrai visage. (...) Or cette après-midi dont je veux parler, j’étais assis à l’intérieur du café des Deux-Magots à Saint-Germain-des-Prés..."


Walter Benjamin, in Chronique Berlinoise


(para a Rafa, porque é tão bom uma amizade assim)



terça-feira, 30 de outubro de 2012



© ssobrado, paris, 2011






'À sua volta crescia o silêncio, doloroso silêncio, semelhante ao que se estende por cima do mar cuja misteriosa mansidão nos acorda, obrigando-nos a descobrir, subitamente, que a solidão é muito maior do que julgávamos.'

Al Berto, in Lunário



domingo, 21 de outubro de 2012



 
© rafa, oeiras, 2009






Procura-se um amigo.

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Vinicius de Moraes


(para Susana)




domingo, 30 de setembro de 2012


© rafa, lisboa, 2012
 

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)
 
 
 
 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012


© ssobrado, porto, 2012



'Inauguravam um tempo novo, um tempo sem a contagem acelerada de horas sobre horas. Viviam novas sensações, mergulhavam em águas límpidas, nadavam um no outro, exploravam lugares recônditos e aventuravam-se nas profundezas de um azul de alma, sereno e cativante.'

M. Lage, in 'Das Arábias'



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

 
 
© rafa, lisboa, 2012
 
 
Minha alma procura-me
 Mas eu ando a monte,
 Oxalá que ela
 Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
 Ser eu é não ser.
 Viverei fugindo
 Mas vivo a valer.
 
Fernando Pessoa
 
 

sexta-feira, 31 de agosto de 2012



© ssobrado, porto, 2012



'- Gatinho Cheshire - começou Alice, timidamente (...)
- Diga-me, por favor, a partir daqui, que caminho devo seguir?
- Isso depende bastante do sítio para onde queres ir - respondeu o Gato.
- Pouco importa para onde - disse Alice.
- Então não tem importância para que lado vais - disse o Gato.
- Contando que vá dar a qualquer parte - acrescentou Alice, explicando-se melhor.
- Ah, isso é que vais de certeza - disse o Gato - se andares o suficiente...'

Lewis Carroll, in Alice no País das Maravilhas